TUDO... DEPOIS QUE ELA SE FOI
TUDO... DEPOIS QUE ELA SE FOI.
Os dias amanhecem, e anoitecem do mesmo jeito. O sol entre a bruma, o sol rasgando o céu, o sol dominando o dia, o sol caindo coma tarde para que a lua possa cumprir sua sina. Mesmo assim... nem todo dia é igual.
Aquela terça-feira foi o divisor de águas, foi o marcador de um antes e um depois, foi o marcador de um jogo cujo final jamais foi imaginado. Naquela terça-feira ela se foi! Mas foi também numa terça-feira que ela veio e é aí que começo essa história.
Foi lá no sul do país, na cidade chamada "maravilhosa". Ela nasceu! Uma menina comum, de semblante doce, marcada para um destino. De tudo aprendeu um pouco e medo era o que ainda não conhecia.
Cidade grande, cheia do desconhecido. Do lado da sua casa passava uma perna de rio, cujo mistério sempre teve vontade de decifrar, mas sempre fora impedida.
Seus pensamentos sempre foram maiores que sua capacidade de empreendê-los, compreendê-los e assim ela foi crescendo. Uma bonequinha de porcelana, com traços angelicais, adulta antes do tempo, mas capaz, mesmo, apenas de sonhar.
Um ano, dois anos, três anos, quatro anos... eis que conjecturas constantes a punham em apuros e ficava de castigo até por não articular bem as palavras. Mas ninguém jamais conseguiu prender a sua alma aventureira. E ela cresceu em ares nordestinos, cujos caminhos sempre lhe foram impedidos, apesar de não abafar a sua engenhosidade. Maria era tímida, apesar de toda a energia. Amava sem medidas e sonhava com um amor ofegante, no qual ela fosse predominante e ninguém jamais ousasse mandar.
Dentre todas as aventuras sonhadas, uma se concretizou. Maria fugiu com seu amor e foi viver a sua história. É onde eu apareço de verdade e começo a dizer dessa Maria bem de perto.
Mãe de muita gente, ela não tinha tempo de ser minha mãe, mas no fundo, ela me acalentava no seu coração e lutava por um futuro o qual sonhava para mim. Essa mulher suportou muitos "nãos", para que eu tivesse todos os "sins" que eu precisasse. E mesmo sem estar comigo, me ensinou coisas as quais jamais esquecerei.
Maria adorava me enfeitar, como se estivesse se projetando em mim, que aliás, fui seu primeiro grande projeto. Não gostava de se enfeitar, mas bastava apenas sorrir que tudo ao seu redor irradiava e se destacava. Ela pouco me ensinou a prática, pois o tempo nunca fora seu aliado, mas por suas teorias, muitas vezes correndo, aprendi a ser tão forte quanto ela. Até que chegou aquela terça-feira.
O dia tombou e caiu nos braços da noite. Tudo comum. Mas não para Maria. Quando a noite chegou trouxe consigo uma agonia imensurável e quando foi embora, levou junto a minha Maria. Ainda era a terça-feira, correndo para dar lugar à quarta-feira.
_ Ela não está respirando... chega!!!!! _ gritou, desesperada, dona Luisinha, uma vizinha que nos ajudava desde sempre.
O desespero foi tamanho, que mal consegui chorar. Saí dali seguindo o cheiro que vinha do jardim que ela cultivava. Não sei o por quê, mas ela parecia presente ali. Meu pai, inconsolável, não parava de chamar por ela, sem retorno. Meu irmão, cabisbaixo, só reclamava de sua própria ausência. O cachorro dela, do qual eu sentia muitos ciúmes, dizia que ela gostava mais dele que de nós, não arredou as patas do pé da cama, onde ela estava. E o meu coração, mais forte que meus pensamentos, acompanhava tudo em silêncio, sem conseguir acreditar.
Chegada a hora do cortejo fúnebre, o silêncio com que todos a acompanhavam gritava dentro do meu coração. Ela não quereria esse silêncio e , por mais que minha alam estivesse despedaçada, surgiu em mim uma força descomunal e comecei a cantar, como ela gostava. Logo percebi que um grande coral seguia comigo de uma maneira solene e aminha dor, aos poucos, se transformava na alegria que era só dela.
O momento de deixá-la naquele campo santo não fora o mais fácil de suportar, mas era preciso. Fechei os olhos, dei volta e vim embora. Era preciso recomeçar, continuar.
Entrar na casa dela, olhar os quadros na parede... o cheiros do perfume impregnado em toda a casa... ver meu pai perdido num infinito de saudades e lembranças, sem ação para nada, ver meu irmão batendo nas paredes, como se isso a trouxesse de volta, deu-me a infeliz certeza de que a presença física não mais seria possível. Mas precisávamos continuar, afinal, seria isso o que ela ia pedir. E continuamos, embora deixando tudo do jeito dela.
A noite, sempre traiçoeira, nos mostrava lembranças dos jantares em frente a TV. O sono era sempre de passarinho, sempre acordávamos, como se tivéssemos cochilado antes dela chegar do trabalho. Mas era em vão. O cheiro do café na cozinha não tinha o mesmo aroma e sabor de antes. Ao abrir o armário, tudo lá era ela, o jeito como arrumava os alimentos. O jeito de preparar suas receitas simples ao nosso paladar era perfeito. Quanta sinestesia...!!!! E o tempo não perdoa, ele passa.
Assim como os dias passam, as lembranças ficam cada vez mais vivas. Chegou a hora de mexer nas coisas da minha mãe. Era como poder abraçá-la novamente! De repente, encontrei um caderno de capa dourada. A curiosidade tomou-me completamente. Ao abri-lo, cada página era escrita era um pedacinho da alma da minha mãe. Ela nunca nos mostrou. Nunca soubemos de sua paixão por literatura e eu não tive coragem de mostrar a mais ninguém. Seria um segredo nosso. Mas o que me fez sentir ainda mais a sua presença, foi quando encontrei seus álbuns de fotografias. Cada paisagem, cada flor, animal e céu registrados eram parte dela, bem mais que o seu próprio corpo. Depois de horas contemplando seus registros, percebi que, mesmo distante, ela jamais sairia dali, de nós. A ausência física é apenas um jeito que a vida nos dá de tornar eterno, presente, vivo em nosso meio, alguém que viveu por nós, conosco.
Tudo aquilo que ela deixou é ela viva no meio de nós. Assim, o tudo depois que ela se foi é somente ela perpetuada, viva em nosso meio, em nosso ser, com suas experiências, jeitos, feitos.
Só então concluo que, mesmo não estando presente fisicamente, jamais se perde alguém cujo amor é a base de tudo o que fez e faz na vida. Isso é "tudo, depois que ela se foi"!
Beth Ferreira
(14.05.19)
Esse texto tem uma mensagem inconsciente de querer ser lembrado de modo poético. Um desejo de todos nós mas só os que deixam um legado artístico pode ser lembrado.
ResponderExcluirAs lembranças narradas tem apelo forte e real que nos faz refletir sobre o dia de nossa partida e de como seremos lembrados.
O final enaltece o amor como forma de perpetuar nas lembranças de alguém.
Esta é uma narrativa forte mas tem uma sensibilidade que se percebe na forma em que foi escrita.
Obrigada, Marta!
ExcluirMuito bonito tia, de certa forma ao passar do texto, me trouxe na cabeça que poderia ser sobre várias pessoas…. Sua mãe, minha avó Maria, ou a sua própria história contada de uma forma vista de “fora” ( falo da inspiração para o enredo do texto) , ou simplesmente sobre um pouco da vida de cada mulher que de certa forma, tem algo haver com o conteúdo do texto….
ResponderExcluirA vontade de ser lembrada, de saber se realmente tivemos um legado, e se deixamos algo além da saudade de quem nos conhecia… a saudade acredito que cada um tem uma forma de expressar, seja de alguém que já se foi, ou de alguém que não temos mais contato, mas que de certa forma fez parte de quem somos…. Parabéns , ótimo texto para ler e refletir sobre o que realmente importa.
Raiane Priscila